Risco medido pelas práticas ambientais, sociais e de governança 359

Solange Beatriz Palheiro Mendes é diretora-executiva da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) / Divulgação

Confira artigo de Solange Beatriz Palheiro Mendes, diretora-executiva da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg)

O setor segurador deu uma prova importante neste ano do quanto será estratégico para validar se uma instituição adota as práticas ambientais, sociais e de governança (ASG). Uma renomada companhia europeia negou a subscrição de risco para uma grande mineradora australiana por entender que esta feria seriamente os critérios de sustentabilidade. Daqui a alguns anos, a tendência é que as seguradoras passem a avaliar essas métricas cuidadosamente – não apenas no que tange à questão de meio ambiente – antes de emitirem uma apólice, tornando-se balizadoras que vão validar se uma empresa realmente é ASG, ou se apenas adota o discurso, o chamado greenwashing.

Outro passo importante foi o lançamento da Net – Zero Insurance Alliance (NZIA), em tradução livre, “Aliança Seguradora para o Carbono Zero”, na qual oito das seguradoras e resseguradoras líderes mundiais se comprometeram a fazer a transição de suas carteiras de subscrição para emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050.

Nesse contexto, o setor entende que para avaliar métricas que contribuam para o enfrentamento das adversidades climáticas e a diminuição dos impactos sociais, precisa fazer o exercício de olhar para dentro e organizar a sua própria atuação. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) tem essa questão mais estruturada há quase dez anos, a partir da criação da Comissão de Integração ASG que, entre outras ações, passou a divulgar anualmente o Relatório de Sustentabilidade do Setor. Na edição mais recente do Relatório, lançada em setembro, foram divulgados números que mostram que o setor de seguros brasileiro vem incorporando gradativamente a cultura relacionada ao desenvolvimento sustentável nas suas tomadas de decisão e em seu ambiente organizacional.

Das 34 seguradoras que participaram do levantamento – juntas, correspondem a 85,7% do mercado representando pela CNseg e as quatro federações que a compõem – 90,5% das participantes afirmaram que integram temas ASG na estratégia da organização. Essa integração ocorre em diversos aspectos, incluindo: procedimentos, políticas e planejamento estratégico (84,2%), criação de produtos ou serviços (73,7%), condições contratuais das apólices, gestão de investimento e subscrição de riscos (47,4%) e na regulação de sinistros (42,1%).

Outro ponto importante é que 55% informaram que incluem tópicos ASG na política de investimentos, próprios ou geridos por terceiros. Além disso, 35% contam com metodologia de avaliação ASG na análise e gestão de ativos, enquanto 5% estão em fase de implementação e 20% pretendem adotar no futuro.

Um dado merecedor de destaque é que 58,3% disseram já ter produtos ou linhas de negócio relacionadas ao risco ou responsabilidade ambiental. Destacam-se: incentivo ao reparo de peças em vez de troca, no caso de quebra de vidros no seguro auto; programa de gerenciamento de resíduos automotivos; reciclagem e reaproveitamento de peças automotivas; destinação de sucatas e peças substituídas de veículos danificados em acidentes; inspeção veicular móvel para conscientizar o motorista sobre a importância da manutenção preventiva do veículo; consórcio para compra de placas solares; cobertura para equipamentos de energia solar ou eólica; programa de reciclagem de cartões plásticos; plano de ação para reduzir, no menor prazo possível, o atendimento a sinistros e pagamento de indenizações a segurados afetados por tragédias naturais.

Nas questões de governança, 90,5% responderam manter um serviço de Ouvidoria e 76,2% disseram que mantém canais externos sigilosos e anônimos para denúncias de comportamentos não éticos ou incompatíveis com a legislação. E 57,9% afirmaram que adotam práticas para o alcance da igualdade de gênero e empoderamento de todas as mulheres e meninas.

Esses índices são muito positivos e mostram que o comprometimento do setor segurador com o tripé ASG está avançado, o que só é possível porque a preocupação não é recente, mas sim, de um segmento que tem a cultura do planejamento e antecipação de riscos no DNA.

Maria Helena Monteiro: Fatos Relevantes sobre a Habilitação dos Corretores de Seguros 365

Maria Helena Monteiro é Diretora de Ensino Técnico da Escola Nacional de Seguros / Foto: William Anthony / Arquivo JRS

Confira artigo de Maria Helena Monteiro, diretora de Ensino Técnico da Escola de Negócios e Seguros (ENS)

Há 50 anos, os mercados segurador e da corretagem de seguros tiveram a coragem de fundar a Escola de Negócios e Seguros (ENS). Ao longo desse tempo, a ENS capacitou milhares de profissionais para a indústria brasileira de seguros, por meio de programas educacionais de excelência e inovadores. Assim, adquiriu credibilidade e se consolidou como a mais respeitada instituição de ensino voltada para a qualificação profissional em seguros e áreas afins.

Desde o início, a Escola teve como uma de suas principais atribuições a habilitação técnico-acadêmica dos corretores de seguros, missão cumprida com rara e exemplar competência. Em cinco décadas, foram mais de 100 mil corretores de seguros formados.

No começo de 2021, uma nova entidade foi autorizada a habilitar corretores de seguros no Brasil. A concorrência é salutar e faz parte do jogo de mercado. Novos entrantes sempre serão bem-vindos, desde que respeitem a história das empresas e entidades que ajudaram a construir a solidez e a reputação do mercado nacional de seguros, um setor forte e moderno, à altura dos players internacionais.

Essa nova instituição que atua na habilitação dos corretores baseia sua comunicação no fato de que veio para trazer inovação ao mercado, mas, na verdade, sabemos que é a ENS que vem inovando há 50 anos! A pandemia demonstrou isso de forma clara, quando fomos capazes de construir a primeira e única Sala do Futuro da América Latina, na nossa representação em São Paulo (SP). Além disso, firmamos parcerias inéditas com instituições de renome de Portugal, Inglaterra e Israel, para realização de treinamentos internacionais sobre Inovação, ratificando nossa posição de vanguarda.

Também em meio à pandemia, migramos todos os nossos cursos para o modo remoto, sem sequer uma hora de aula perdida, e com avaliações monitoradas por Inteligência Artificial, mantendo a máxima integridade do sistema de provas.

Isso além do material didático totalmente desenvolvido para o ensino a distância, com inúmeros recursos de aprendizagem e fixação de conceitos.

Não existe material didático pronto no Curso para Habilitação de Corretores de Seguros (CHCS). Todos os anos, a ENS investe muito na criação de novos materiais e na atualização dos existentes, para que os alunos sempre tenham acesso a informação relevante e de qualidade para o exercício da profissão – nosso material didático é completo e de fácil entendimento. Não raro, nossas apostilas são impressas e viram bíblias acompanhando nossos alunos carreira afora.

Somente em 2021, o CHCS somou mais de 11 mil horas-aula on-line ao vivo, ministradas por um corpo docente composto por mais de 1.000 professores, de todo o ecossistema do mercado: seguradoras, resseguradoras, corretoras, escritórios de advocacia especializados, prestadoras de serviços, insurtechs, entre outras.

Sempre tivemos a preocupação de formar perfis empreendedores. Para isso, além das disciplinas de empreendedorismo durante o curso, promovemos as Oficinas dos Corretores de Seguros e as Feiras de Empreendedorismo, que buscam facilitar o início de carreiras autônomas e exitosas. Nesses eventos contamos com o apoio das grandes seguradoras, das grandes corretoras de seguros, das prestadoras de serviços e, mais recentemente, das insurtechs e demais empresas que militam no vasto universo da inovação, hoje fundamental para os corretores que iniciam carreira.

Para atender a um consumidor cada vez mais exigente e bem informado, o corretor de seguros vem, ao longo dos anos, aprimorando a sua abordagem ao cliente e passando a adotar uma postura voltada para a venda consultiva. Então, além do conhecimento técnico de excelência que a ENS transmite, passamos a moldar o perfil dos nossos alunos para atender a essa nova realidade, transformando-os em verdadeiros consultores de gestão de riscos com conhecimento em vários segmentos. Uma prova disso é que, em 2019, lançamos o curso para formação de AAIs (Agentes Autônomos de Investimentos), que abriu ainda mais o leque de atuação do corretor.

Vale ressaltar que a profissão de corretor de seguros é uma das mais inclusivas que existem. Antes da pandemia, com a predominância dos cursos presenciais, a ENS conseguia atender no máximo 60 municípios em todo o Brasil. Depois que o programa passou a ser ministrado de forma totalmente online, passamos a atender mais de 1.000 municípios, com alunos espalhados por todo o País.

A participação das mulheres no curso também merece ser destacada, já que é cada vez maior o número de alunas nessa profissão que possibilita bastante flexibilidade de horário. Desde 2001, as mulheres são maioria no setor de seguros. Dentro da sua filosofia de entender cada vez melhor o segmento em que opera, a ENS conduzirá, em 2022, o 4º Estudo das Mulheres no Mercado de Seguros. Esses trabalhos têm demonstrado como a presença feminina tem evoluído não só numericamente, mas, também, entre os cargos de gestão.

Os mais de 100 mil corretores de seguros formados pela ENS nos últimos 50 anos são a prova viva de que a tradição e a inovação convivem com estilo para produzir profissionais completos. E assim seguiremos, sempre buscando inovar em todos os programas educacionais que disponibilizarmos ao mercado, em especial, nos programas de formação de corretores de seguros.

O fenômeno da longevidade exige o olhar atento ao futuro 360

Nilton Molina é presidente do Instituto de Longevidade MAG / Divulgação

Confira artigo de Nilton Molina, presidente do Instituto de Longevidade MAG

Estamos vivendo cada vez mais, e isso não é uma novidade. Temos acompanhado há mais de meio século o aumento contínuo da expectativa de vida, de acordo com dados e estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse é o caso brasileiro, mas no mundo inteiro se observa o mesmo fenômeno.

É bem verdade que, embora estudiosos estejam considerando sobre o eventual impacto da pandemia nos indicadores de sobrevivência, é preciso entender que a pandemia é apenas um retrato, enquanto a demografia deve ser vista como um filme. Isso fica ainda mais claro quando consideramos a rápida resposta da ciência no desenvolvimento de vacinas, visto que em menos de um ano, grande parte do mundo já está vacinado. Não obstante essa discussão, se a pandemia vai alterar ou não os índices de longevidade, precisamos continuar olhando o futuro.

Se o bônus da longevidade é viver mais, o ônus é representado pela necessidade constante de planejarmos nosso futuro financeiro. Para isso, o primeiro passo é admitir que pensa em longevidade não é coisa do futuro. Trata-se de um processo que deve permear toda nossa vida. Os valores poupados e os juros sobre essa acumulação confirmam essa tese: quanto antes começamos a poupar, mais rápido alcançaremos os nossos objetivos.

Outro ponto importante para considerar em nossos programas de educação financeira é um olhar sobre tudo o que significa ser previdente e não apenas considerar o propósito de longo prazo, ou seja, as aposentadorias. Nesse cenário de análise não podemos desconsiderar os imprevistos que poderão acontecer durante esse longo caminho, até as aposentadorias. É nesse contexto que o mercado de seguros ganha cada vez mais relevância.

É imprescindível que as pessoas passem a considerar todos os riscos aos quais estamos expostos: morte prematura deixando dependentes financeiros; invalidez que comprometa a capacidade de gerar renda; e bem-estar, a fim de garantir recursos para viver melhor e com saúde.

O seguro de vida é a solução para amenizar todos esses riscos. Por meio dele, é possível contar com soluções sob medida, para cada tipo de necessidade, perfil e até mesmo em diferentes condições de saúde e atividades profissionais.

A compreensão sobre a importância de planejar e preservar o próprio futuro e de suas famílias deve estar cada vez mais presente na nossa sociedade, muito impulsionada por fatores externos, como a pandemia, reforma da previdência, novos modelos sociais e a longevidade. É fundamental, no entanto, transformar consciência em ação, antes que seja tarde demais…

Paulo Barni, Superintendente do GBOEX: Boas perspectivas nas corporações 461

Paulo Antonio Barni é Superintendente de Compliance, Controles Internos e Modelagem do GBOEX / Divulgação

Confira artigo de Paulo Antonio Barni, Superintendente de Compliance, Controles Internos e Modelagem do GBOEX

O mundo corporativo tem inovado de maneira significativa. A gestão, relacionada com a execução dos processos das empresas, tem se direcionado, com intensidade, para a dimensão digital, em razão do movimento praticado pelas corporações em consequência da pandemia da Covid-19, uma nova realidade vivenciada pela sociedade.

Desde 2020, as empresas, objetivando a viabilização da sobrevivência dos seus negócios, adotaram fluxo de inovação e digitalização junto à maioria de seus processos. Esse empenho de customização, necessário para readequação das operações, estabeleceu novos desafios, cenários, riscos e trouxe novas oportunidades. É fato que a base estrutural das corporações foi movimentada, e a perspectiva de retorno à posição anterior, definitivamente, não existe mais.

A virtualização das operações, inicialmente, foi desafiadora, mas oportunizou às empresas vivenciarem uma nova realidade na gestão, em diversos aspectos, oportunizando às organizações trabalharem em uma estrutura mais matricial. O trabalho remoto possibilitou um outro modelo de liderança das equipes, permitindo que a tecnologia viabilizasse os negócios e o exercício da força de trabalho fosse executado, em muitas circunstâncias, ininterruptamente.

Olhando para o micromundo da operação, verificamos que os ciclos de negócios foram revistos, adaptados ou inovados. Os requisitos hoje são outros, e serão endereçados de forma apropriada. É fato que superamos o desafio posto pela pandemia.

Neste retorno ao trabalho presencial, lições de redesenho assimiladas estão sendo implantadas nas atividades técnicas, operacionais e comerciais. Ter uma concepção mais holística da organização, alinhando mercado, estratégia e operação, é requisito fundamental. Precisamos considerar o sentido das “partes” no “todo” corporativo. É imprescindível que as rotinas, as quais agora voltam a serem exercidas em uma dimensão presencial, sejam traçadas de maneira mais eficiente, eficaz e com a economicidade que a perspectiva do home office trouxe.

O mundo das corporações nunca mais será o mesmo. Compulsoriamente, em razão das circunstâncias, evoluímos nas relações de trabalho. Efetivamente, aprendemos com essa nova realidade. Empresas de alta performance souberam, com a abordagem de qualidade exigida, superar as adversidades do momento sem prejudicar seus clientes.

PEC dos Precatórios: Fim horroroso ou horror sem fim? 339

Luis Otavio Leal é economista-chefe do Banco Alfa / Divulgação

Confira artigo de Luis Otavio Leal, economista-chefe do Banco Alfa

Entre as idas e vindas da PEC dos Precatórios, devemos perguntar: se ela é mesmo tão ruim, por que os ativos pioravam toda a vez que a sua aprovação ficava ameaçada e melhoravam quando o inverso acontecia?

A PEC dos Precatórios é um “fim horroroso” para o problema de arrumar espaço dentro do Teto dos Gastos para as demandas políticas, mas as opções na mesa para substituí-la poderiam transformar essas discussões em um “horror sem fim”. A ideia de se acionar novamente o estado de calamidade, retirando as amarras fiscais em 2022, abriria uma caixa de pandora de gastos de difícil mensuração. Portanto, partindo da ideia de que a “opção” é pior, vamos aproveitar a aprovação da PEC dos Precatórios na Câmara dos Deputados para mostrar a razão do mercado ter ficado tão ‘nervosinho’, em relação a sua elaboração, e o motivo da comemoração, após ela ter passado pelo seu primeiro teste no Congresso.

O título “fim horroroso”, refere-se à solução encontrada pelo governo federal para encaixar o Auxílio Brasil dentro do Teto dos Gastos. Isso nos parece bem adequado. Primeiro, porque adia o pagamento de parte dos precatórios, que é uma dívida transitada e julgada pela justiça, de modo que a diferença disso para calote é uma mera questão semântica. Segundo, porque esse adiamento vai levar a um efeito cascata futuro, que terá efeitos nocivos sobre as contas públicas muito além de 2022. Ou seja, para resolver um problema do ano que vem, estamos arrumando um problema para 2023 em diante. Terceiro, porque mexeu em uma das cláusulas pétreas do regime fiscal brasileiro: o Teto dos Gastos Públicos.

Por tudo isso, não deve causar estranheza que o mercado tenha reagido tão mal quando essa opção apareceu como sendo o ‘Plano A’ do Governo para resolver o problema do espaço no Teto dos Gastos. Porém, como temos que aceitar isso como fato consumado, vamos aos números. Após todas as manobras, calculamos que foi aberto um espaço ao redor de R$ 106 bilhões na restrição aos gastos para 2022, sendo R$ 40 bi vindos do adiamento do pagamento dos precatórios e R$ 66 bi da mudança de indexador do Teto. Parece muito para custear um programa que vai demandar R$ 47 bi a mais do que já estava previsto no Orçamento para o Bolsa Família. Entretanto, temos que levar em conta outras benesses que serão inevitáveis em ano eleitoral, como o “Bolsa Caminhoneiro” (custo de R$ 4 bi), o Auxílio-Gás (custo de R$ 6 bi) e a renovação da desoneração da folha de pagamento para 17 setores (custo de R$ 9 bi).

Além disso, temos ajustes contábeis, como as correções das despesas dos demais Poderes (custo de R$ 2 bi) e das vinculadas à saúde (custo de R$ 3,9 bi) e à educação (custo de R$ 1,8 bi).

Temos ainda o ajuste da inflação. No Orçamento de 2022, enviado ao Congresso em agosto, o índice projetado para corrigir o salário-mínimo era de 6,2%. Após o IPCA de outubro, divulgado no último dia 10, acreditamos que esse número vai ficar mais próximo de 10%. Como o próprio governo estima que, para cada 1 p.p. de inflação, temos um aumento dos gastos de R$ 8 bi, essa diferença de projeção retira algo próximo de R$ 30 bi do espaço aberto no Teto. Diante desse cenário, chegamos a um valor ao redor de R$ 104 bi. Muita demanda para pouco dinheiro. Isso sem contar com o aumento do Fundo Partidário que, certamente, vai entrar em discussão, as proibidas Emendas do Relator e o aumento para o funcionalismo público anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro do outro lado do mundo sem combinar com os “russos”.

Essa sensação de que o ‘pé não cabe no sapato’ apenas reforça o mal-estar gerado pela mudança da regra do Teto dos Gastos. Se, no primeiro ano em que essa regra fiscal foi efetivamente restritiva, foi alterada para atender às demandas políticas, qual a credibilidade dela como restrição aos aumentos dos gastos daqui para frente?

A mudança no Teto dos Gastos incluída na PEC dos Precatórios não vem sem custos, e eles são facilmente mensuráveis, seja na piora da trajetória da dívida ou na deterioração dos preços dos ativos brasileiros. No fim, vamos ter um Real mais desvalorizado, uma inflação mais alta, requerendo juros mais elevados. O que irá diminuir, consequentemente, as expectativas de crescimento e tornando mais custoso o ajuste fiscal requerido para reequilibrar a trajetória da dívida pública.

Como o próprio título sugere, a situação pode ficar pior. Caso a PEC dos Precatórios não seja aprovada até o final do ano, a ala política do governo federal já indicou que vai partir para o “Plano B”, que seria decretar Calamidade. Nesse caso, todas as amarras fiscais seriam afrouxadas, de modo que não se teria que respeitar nem o Teto dos Gastos nem a Lei de Responsabilidade Fiscal. Os que defendem essa solução advogam que isso ficaria restrito ao ano que vem. Entretanto, juntando isso ao fato de que, a partir de 2023, podemos ter um novo governo, temos a combinação perfeita para o mercado extrapolar esse descontrole dos controles fiscais para além de 2022.

Obviamente que temos a opção de fazer os ajustes nas contas públicas através do aumento nas receitas. Entretanto, aqui também a situação complica, pois as Receitas Líquidas teriam que subir dos atuais 17,2% do PIB para um patamar ao redor de 21%. Esse nível superaria em quase 1 p.p. o recorde da série iniciada em 1998, alcançado em 2010 (20,2%) e só obtido por conta da receita extra recebida pelo governo com a cessão onerosa do petróleo do Pré-Sal à Petrobras. Ou seja, salvo por alguma privatização bilionária e/ou por alguma solução ‘criativa’, como a venda de reservas cambiais, o ajuste não poderia ser feito apenas pelo lado das receitas.

Mais uma vez, o Brasil escolheu o caminho mais fácil para resolver um problema complexo. Os formuladores do Teto dos Gastos queriam que este, além de ser um guia para a trajetória futura dos gastos do governo federal, em algum momento fosse tão restritivo a ponto de tornar inevitável a discussão a respeito das prioridades na alocação das despesas no Orçamento da União. Porém, quando esse momento chegou, decidiu-se colocar ‘um zíper na camisa de força’, tornando a regra pouco crível.

A recente melhora dos ativos com a aprovação da PEC dos Precatórios não deve ser considerada uma prova da aprovação deste instrumento pelos mercados, mas um alívio temporário após se vislumbrar um cenário ainda pior. Como o “jogo só termina quando acaba”, ainda temos toda a tramitação no Senado Federal, com ainda mais emoção nas próximas semanas.

A democratização dos seguros é fundamental para a economia do País 437

Dhaval Chadha é founder da startup Justos / Divulgação

Confira artigo de Dhaval Chadha, founder da startup Justos

O seguro é uma das invenções mais geniais da economia moderna: juntar os recursos do coletivo para evitar catástrofes do indivíduo. Transferência de riscos de pessoas e seus bens às seguradoras e assim proteger às pessoas e deixar elas viverem sem medo. Esse é o papel do seguro para a sociedade. Em sua definição mais simples, o seguro é um acordo contratual entre contratante e contratada, no qual uma é responsável pelo pagamento das parcelas e a outra assume os riscos de pagar uma indenização em caso de danos. O seguro permite que o risco seja transferido a empresas especializadas no seu gerenciamento, possibilitando que indivíduos, empresas e governos desenvolvam projetos mais arriscados.

Além do seguro fornecer segurança e proteção contra grandes riscos, a importância do setor para a economia é gigante. O seguro torna a poupança (capital parado) em investimento; reduz perdas; garante tratamento médico e compensação por lesões; possibilita investimentos e inovações protegendo o downside (movimento negativo em um ativo, um mercado ou até na economia como um todo); aumento do crédito, pois as credoras sentem mais segurança quando tem garantias; complementa o investimento em serviços sociais; traz estabilidade e eficiência ao sistema bancário, nos mercados de capital e nas taxas de juros; na criação de empregos, recuperação da economia e crescimento do PIB. Com R$ 8 trilhões sob gestão e representando, em média, 6% do PIB brasileiro, a participação do setor ainda é pequena quando comparada a países como Coreia do Sul, Holanda e Reino Unido, que ultrapassam os 12%.

O mercado é altamente competitivo e diversificado: em 2019, por exemplo, havia mais de 122 seguradoras, 15 Cias de capitalização, um mil operadoras de saúde suplementar, 94 mil corretoras de seguros ativos dentro de 90 ramos de seguros classificados pela Susep (Superintendência de Seguros Privados), agrupados em 16 grupos. Os dados indicam que o mercado de seguros oferece ampla escala de produtos e serviços contribuindo para o cotidiano da população.

Como demonstração da importância do seguro para a economia do país e para a população, podemos usar um exemplo de uma pessoa que guardou dinheiro durante dois anos para comprar um carro e uma geladeira. Quando adquiriu o veículo, decidiu que não iria fazer um seguro, pois acreditava ser um custo desnecessário e caro. Ao sair da loja, sofreu uma colisão, causando “perda total”. Então, essa pessoa perdeu o seu patrimônio integralmente. Agora, além de usar o dinheiro da geladeira, precisará de mais tempo e mais economias para comprar outro veículo. Como reflexo na economia do país, se ela comprasse um carro e uma geladeira estimularia a cadeia produtiva de ambos os produtos. Se tivesse contratado um seguro, seria indenizada e teria a possibilidade de comprar o veículo e a geladeira ao mesmo tempo.

Nos últimos anos, os brasileiros da classe C passaram a consumir cada vez mais o seguro de automóveis. Entre os principais motivos da democratização do mercado de seguros no Brasil está a preocupação com a segurança. Segundo os dados do Governo Federal, entre 2015 e 2019, foram roubados mais de um milhão de veículos. Somente em 2017 foram 276.389. O volume de roubo e furto de veículos, principalmente nos grandes centros urbanos, vem alertando o brasileiro da necessidade de proteger seus bens.

Um outro grande impulso pela democratização do setor se deu com o surgimento das insurtechs, startups de seguros, que chegaram ao país automatizando operações e modernizando processos quando comparados às seguradoras tradicionais, com uma distribuição mais rápida, fácil e acessível, além de produtos personalizados para os consumidores. Com a flexibilização da regulação de seguros no país e a criação de um “sandbox” regulatório pela Susep para que empresas criem e testem projetos inovadores em condições favoráveis com tempo determinado, as insurtechs ganham cada vez mais relevância no cenário nacional, aumentando a competitividade e levando mais possibilidades para o consumidor final.

Além de inovação, essas startups valorizam a desmistificação do “segurês”, que são os jargões usados pelos players tradicionais do mercado, com palavras como “sinistros”, “apólices”, entre outros. É importante que a linguagem ao falar sobre o tema seja acessível e informal, para que o público se sinta mais próximo do produto e também mais confortável ao fazer a aquisição.

Para que o mercado continue aquecido e que essa democratização continue acontecendo é necessário continuar investindo em tecnologia e comunicação para que a população brasileira se conscientize de dois pontos: a importância de se ter um seguro e que esse serviço está cada vez mais acessível, já que nunca houve tantas opções para quem deseja contratar um.