Carlos Josias: Bike, um assunto a ser pensado e repensado

Confira artigo do advogado sócio fundador e diretor da CJosias & Ferrer Advogados Associados, Carlos Josias Menna de Oliveira

Panorama do Seguro é nome daquele que talvez seja o programa nacional, via CANAL YOUTUBE SINDSEG SP, de maior repercussão por audiência e importância, do setor.

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Apresentado por Paulo Alexandre, que conta, invariavelmente, com a participação do Consultor Econômico do Sindicato das Seguradoras Paulista, Francisco Galiza, uma autoridade e uma referência do mercado indiscutível e de currículo invejável.

Mestre em Economia (FGV), é membro do Conselho Editorial da Funenseg (Escola Nacional de Seguros) Galiza é também Acadêmico da ANSP autor de livros e de mais de uma centena e meia de estudos teóricos sobre o tema seguro, previdência e capitalização, indexados na biblioteca da Escola Nacional de Seguros (Funenseg). É Professor do MBA-Seguros da Funenseg. Palestrante em diversos eventos públicos do setor de seguros. Responsável técnico pela Carta de Conjuntura Mensal do Setor de Seguros e também pelo site da Rating Seguros, especializado em estudos econômicos de seguros, com média de 10 mil acessos/mês.

Com a presença de Galiza, com todo este seu magnifico conjunto de experiência, o programa, que alcançou a sua 203ª edição, foi ao ar para tratar OS RISCOS DE BICICLETAS, se propondo a esclarecer que o Seguro não se limita à cobrança de prêmios e indenização de sinistros, mas também a evitar que o acidente aconteça (no caso, poupar vidas) – e se acontecer que o prejuízo seja amenizado ou diminuído – passou a elencar dicas – recomendações – aos usuários sobre condução deste tipo de veículo.

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Vale ver e é facilmente encontrado no Youtube. Ótimo de ver pois pragmático, curto de duração, direto e objetivo, com linguagem acessível.

O tema de imediato me reportou à minha infância, passou pela minha experiência profissional, passeou por algumas viagens e me remeteu à imensa falta de cuidados das autoridades públicas com a regulamentação e disciplina no uso deste meio de trânsito – há muito a bicicleta deixou de ser um entretenimento, um brinquedo, embora também o seja, eis que utilizada em larga escala como meio de deslocamento para os mais diversos fins, trabalho, estudos etc.

Muito menino, nascido numa cidade portuária e ferroviária – povoada por fábricas de todo o tipo – e numa época de pouquíssimos veículos automotores, a bicicleta era o mais utilizado dos meios de transportes disponíveis.

Pela manhã os operários e estudantes saíam de casa para o trabalho ou colégio e à tarde retornavam de bicicleta. Homens, mulheres, adolescentes, enfim, a esmagadora maioria e repetiam este hábito todos os dias – era o necessário costume, porque o principal meio de ir e vir inclusive para outros municípios da região.

Tirando alguns tombos, que se sabia acontecer, não havia, em regra, gravidade maior nos acidentes – salvo por um ou outro que ficava na linha do trem.

Depois vieram os carros. O avanço das ruas – terra, paralelepípedo, asfalto …os acidentes mais frequentes. Os riscos do progresso.

Quando cheguei em Porto Alegre – passando pela enchente de1967 que poucos falam mas que foi um trailer avançado da que nos vitimou recentemente, com dramas muito semelhantes – havia já uma expectativa de caos para o trânsito, com o acréscimo de ônibus e bondes em maior quantidade, e explosão dos automóveis.

Como de fato ocorreu.

Diante disto o aumento considerável de sinistros com participação das bicicletas sem contar com uma evidente competição perigosa dos condutores de auto com os usuários das duas rodas, o que gera queixas e enfrentamentos mútuos.

Entrou para história policial da capital episódio em que um motorista de automóvel, trancado no trânsito porque uma multidão de ciclistas em marcha, na pedalada por esporte, tonava devagar o seu transitar, resolveu fazer boliche e avançou seu carro contra o grupo provocando diversos atropelamentos com graves resultados. Foi um clamor popular que durante um tempo encheu páginas de jornais, noticiosos de rádio de tv, depois ficou na lembrança dos fatos da cidade.

O fato é que as nossas cidades não estão preparadas, e parece nem fazer questão de se preparar para facilitar esta convivência entre condutores de automóveis e ciclistas e mudar ou amenizar este quadro desconfortável e triste.

Faixas para bicicletas quase inexistem ou são precárias e de percurso curto, o que pouco ou nada adianta.

Nem todo lugar possui uma faixa para ciclistas como a Av. Paulista, em SP, mas a cidade tem aquela, ali, e quantas mais relevantes considerando a extensão da capital de São Paulo?

E falta respeito. O principal de todos os componentes. O motorista de veículo automotor em geral desconsidera o ciclista, o que gera ódio e aumento desta selvagem competição. E ainda mais, até pela falta de hábito com as ciclovias, o pedestre também pouco caso faz das cautelas e preferências quando aquelas as detém.

Defeito nosso, brasileiro, corrigido em muitos países europeus onde a convivência é respeitosa e sadia, por isto proveitosa

Estava a turismo, na Alemanha, com pessoa da família que lá morou por mais de dez anos, quando muitas vezes ela me segurou o braço em passagens de ciclovias. Vício adquirido pela inexigibilidade da cautela por aqui. Indagado sobre repercussão da culpa a resposta foi imediata: se for do ciclista ou do motorista de automóvel dá cadeia, se for do pedestre te cobram a lavagem do sangue nos pneus.

Aqui sabemos, há uma boa dose de tolerância, inclusive na aplicação da pena e ou na da indenização.

Com mais de quarenta anos de advocacia securitária devo ter elaborado peças defensivas em mais de 10 mil casos de denunciação em acidentes de trânsito.

E ficava impressionando com o volume de sinistros ocorridos com elas, bicicletas, uma fábrica infindável de danos materiais, aleijões e casos fatais desfilaram sob meus olhos para análises.

Incontáveis casos em que o atropelador sequer percebeu ter havido o fato.

Veja-se que mais recentemente as bicicletas estão disponíveis para a população em diversos pontos das cidades para deslocamento, e há, até, um incentivo mirando despoluir o meio ambiente.

O Brasil, seguramente, está entre os países que mais coleciona acidentes de trânsito e, certamente, os casos envolvendo ciclistas pontuam com preocupante liderança.

O Estado, ao longo dos anos, tem demonstrado muito pouca importância com este nefasto índice.

Enquanto não houver pelo Estado a adequação de nossas cidades, estradas, enquanto restar impune violações da lei sem qualquer ou irrisória punição a falta de respeito irá perdurar, e com este conjunto de fatores a sinistralidade cruel só tende a aumentar.

Quando algum familiar meu sai de bike, eu penso em aprender a rezar.

No mínimo as dicas do Galiza merecem muita atenção. De todos.

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